quarta-feira, 24 de setembro de 2025

PREPARAÇÃO FÍSICA EM EQUIPES DE BASE

Preparação Física em Equipes de Base

Autor: José Luis Paramio.
Tradução: Agilson Alves.
Fonte desconhecida.

1. Introdução

A tendência a uma cada vez maior precocidade na importância de treinamentos específicos para as crianças tem gerado um notável incremento das alterações orgânicas que em alguns casos chega a incapacitar totalmente estes «aspirantes» a desportistas para possíveis resultados futuros.
  • A iniciação desportiva tem um caráter formativo (desenvolvimento de qualidades físicas básicas, aquisição de hábitos de conduta - aquecimento, compreensão da importância do treinamento físico, etc. -, enquanto que a especialização requer a aprendizagem e a capacidade de movimento.
  • A aprendizagem é orientada a que o indivíduo adquira destrezas específicas que, se a criança não tenha desenvolvido, lhe podem ocasionar dificuldades no futuro.
  • O objetivo será o de informar sobre uma sequência lógica de trabalho que permita ao jovem desportista chegar à época de sua maturidade física nas melhores condições para conseguir resultados desportivos expressivos. Não se pode esquecer que as práticas desportivas devem ser adaptadas às condições fisiológicas e de desenvolvimento do desportista. 

2. Qualidades Físicas Básicas na criança
 
Consideramos como fundamentais as seguintes:

    2.1. Força
    2.2. Velocidade
    2.3. Resistência Aeróbica
    2.4. Resistência Anaeróbica
    2.5. Flexibilidade - Elasticidade

2.1. Força:
  • Desde os 8 até os 12-13 anos não há grande incremento de força, só aqueles causados pelo crescimento em longitude e espessura muscular devido ao crescimento físico. Isto supõe um aumento do peso corporal.
  • Desde os 14 até os 16 anos, o grande incremento do volume corporal condicionado essencialmente por fatores hormonais proporciona um alto incremento de força até 90% da força total.

2.2. Velocidade:
  • Dos 8 aos 12 anos há um contínuo incremento da velocidade devido a dois fatores principalmente:
    • A. Melhora da força.
    • B. Melhora da coordenação mecânica dos movimentos.
  • Principalmente a partir dos 8 aos 10 anos, esta qualidade é a causadora do adiantamento da curva de velocidade sobre a de força e a partir dos 17 anos, já quase se pode dizer que se alcança o máximo de velocidade.
  • A velocidade é fortemente dependente da coordenação intra e intermuscular, e recentes estudos nos levam a conclusão de que a velocidade de reação alcança níveis de desenvolvimento sobre os 10 anos e que a frequência de movimentos por volta dos 13 anos.
  • Desde os 12 aos 14 anos se atinge o máximo desenvolvimento da rapidez de movimento nas ações desportivas, devido fundamentalmente ao aumento da força veloz.

2.3. Resistência Aeróbica:
  • Dos 8 aos 12 anos existe um crescimento constante da capacidade de resistir a esforços. Se bem que esta atitude experimenta um ligeiro retrocesso no período puberal, em geral pode se afirmar que tanto desde o ponto de vista respiratório como metabólico o organismo infantil está em condições de realizar este trabalho a partir de idades muito precoces.
  • Seu poder oxidatório aeróbico é inclusive maior que sua própria eficiência mecânica.

2.4. Resistência Anaeróbica:
  • Esta qualidade é muito pouco propicia para ser desenvolvida precocemente por carência relativa de uma enzima chave da glucólise anaeróbica: a fosfofructoquinase.
  • Não suportam nem assimilam esforços entre 40 e 80 segundos de duração.
  • A criança não está em condições de assumir um trabalho destas características, e o fato de se realizar violentaria notavelmente seu desenvolvimento biológico.
  • Asbrand demonstrou, em uma experiência com dois gêmeos univitelinos como (se bem que o trabalho anaeróbico precoce pode facilitar resultados positivos – desportivos - em curto prazo) finalizando o período de desenvolvimento, o que trabalhou em idades precoces fundamentalmente em rotinas aeróbicas estava em condições de atingir melhores resultados que quem, queimando etapas, o havia feito de forma anaeróbica.
  • Trabalho anaeróbico alático em jovens se desenvolve por meio de distâncias curtas e períodos de recuperação amplos.
  • Trabalho anaeróbico lático: só a partir da puberdade. Esporadicamente se pode trabalhar nessa época, porém não de forma acumulativa.

2.5. Flexibilidade – Elasticidade:
  • É esta uma qualidade que desde o nascimento vamos perdendo paulatinamente.
  • Até os 10 anos:
    • Praticamente não temos perdido nada, porém no processo da puberdade com o desenvolvimento muscular rápido, se perde muito dessa capacidade.
    • Se um atleta nas primeiras idades (até os 11-12 anos) realiza movimentos dirigidos a esta manutenção, teremos superado a idade de perda mais significativa.
    • A partir desta idade e até os 17 anos, se tiver feito o trabalho descrito anteriormente ainda se pode recuperar em parte a flexibilidade e só neste caso poderia se falar de um desenvolvimento da qualidade pelo treinamento, já que nos demais casos o treinamento consegue apenas uma manutenção dela.
  • A partir dos 18-19 anos a aquisição da flexibilidade é muito mais problemática.

Uma menção a parte merece a COORDENAÇÃO: 
 
«Capacidade para realizar um gesto mais ou menos complexo, combinando o movimento». Traduz-se na destreza ou habilidade específica.

Recomendam-se atividades aeróbicas, combinando corrida + obstáculos + lançamentos.



 Processo evolutivo das qualidades físicas

3. Conteúdos Gerais da Atividade Física:
Devido às limitações da Educação Física Escolar, teremos que realizar determinadas atividades ou tarefas dentro das aulas ou dias de atividade.
Um correto planejamento das diferentes etapas pode ser dividido em:

11-13 anos
  • É a idade de Ouro da aprendizagem motora, e por isso é preciso neste período incrementar a melhora da coordenação e da técnica.
  • São fundamentalmente atraídos pelo jogo.
  • Têm também afã competitivo (aumenta aos 13-14 anos).
  • A corrida, o salto e os lançamentos devem predominar sobre outras atividades.
  • Deve-se basear a atividade (aspecto fundamental) na variedade e originalidade.
  • Pode se começar a aplicar o treinamento da velocidade e da resistência aeróbica.
  • Resistência aeróbica:
    • Por meio de corrida contínua ou fracionada. Não ultrapassar os 20 ou 30 minutos.
    • 1/2 vezes por semana. Se existe Ed. Física Escolar. 10'-12' como aquecimento.
  • Velocidade: Por meio da velocidade de reação, deslocamentos...
  • Iniciação à Força, porém evitando grandes trações musculares e apoios sobre as extremidades.
  • As crianças suportam mal as posições estáticas do corpo e a tensão muscular prolongada.
  • O fato de que a criança tenha preferência por atividades de curta duração se explica por causas fisiológicas como uma menor capacidade de atenção, a necessidade de estímulos recreacionais, e uma menor motivação social para o desporto de longa duração.
  • FCd (freqüência cardíaca): Se deve ensinar a tomar a pulsação.
14-16 anos 
  • Idade ideal para iniciar a preparação orientada para a especialização.
  • Devem manter-se os trabalhos de Resistência Aeróbica, Flexibilidade, Coordenação e Velocidade (cíclica e acíclica -esportes de equipe), já com sistemas de treinamento mais intensivos.
  • Deve programar-se o treinamento progressivo de Força. O trabalho de Força deve ser regido pelos seguintes princípios:
    • 1. Formação polivalente e multilateral.
    • 2. Utilizar primeiro o próprio peso do corpo (autocarga). Empurrar, levantar, saltar, escalar, jogar com bolas medicinais, exercícios com aparelhos ginásticos, caixotes y aparelhos simples, serão algumas das atividades fundamentais.
    • 3. Dito trabalho deve ser progressivo e de acordo com a condição do indivíduo em relação a sua idade biológica (distinta da cronológica).
    • 4. Necessidade de fortalecer a região do tronco (músculos abdominais e lombares).
16-18 anos 
  • É o momento de intensificar os sistemas de treinamento próprios da especialidade.
  • O treinamento já pode assemelhar-se qualitativamente ao do adulto.
  • É preciso respeitar-se os princípios gerais do treinamento: sobrecarga progressiva, sobrecarga periódica, variação das cargas, ordem correta das cargas em cada sessão.

Período
Anos
G E N É R I C O
PREPARATÓRIO MF-F
11
12
13
14
15
16
     Qualidade
RESIST. AEROB.
C.C.Ext.
C.C.Int.
Int.Train.
R.R.

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RESIST.
ANAEROB. LÁTICA
V.R.
R.C.

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-

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RESIST. ANAEROB. LÁTICA
Velocidade
Musculação

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-

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FORÇA
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FLEX.ELAST.COORD.
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TÉCNICA (Assimilação)
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    - Nada    * Muito pouco    * * Pouco       * * * Suficiente    * * * * Bastante    * * * * * Muito


Força (categorias Cadete e Júnior)
  • Na categoria cadete de 1º ano convém utilizar o trabalho de multilançamentos utilizando bolas medicinais de pouco peso, incidindo, sobretudo no trabalho de coordenação.
  • Na categoria cadete de 2º ano poderá se utilizar ou introduzir o trabalho de multilançamentos (bolas de 2-3 kg), realizando exercícios de formação geral. O objetivo fundamental deve estar orientado para o desenvolvimento e fortalecimento geral.
  • Na categoria Júnior:
    • O trabalho de multilançamentos deve ser o primeiro passo.
    • Inicia-se o trabalho com pesos.
    • Utilização de circuitos (desenvolvimento de Força-Resistência, exercícios agonistas e antagonistas...).

4. Aspectos práticos importantes
 
4.1. Aquecimento
  • Deve ser um hábito a adquirir desde as primeiras etapas. Se deve acostumar a criança a sua realização.
  • É uma parte primordial do treinamento.
  • Para suportar um esforço de alto consumo energético, se tem que proceder a elevação da Temperatura Corporal.
  • Fases:
    • 1. Cardiorespiratória ou trote (5').
    • 2. Ginástica geral e alongamentos (10').
    • 3. Específica:
      • · Exercícios de técnica de corrida (skipping...).
      • · Coordenação motora, propriocepção...
      • · Exercícios específicos de basquetebol (bandejas,...).
4.2. Esfriamento ou volta à calma
Depois de qualquer treinamento ou competição, se deve dedicar de 5-10 minutos a realização de alongamentos e um pequeno trote.
 
4.3. Calçado
  • Utilização de um calçado adequado.
  • Deve-se orientar a utilização de calçados de basquete polivalentes (1ª etapa).
  • Diferenciar depois o uso de calçados para o treinamento físico e técnico (2ª etapa).
4.4 Necessidade de ingestão de H2O
  • O rendimento desportivo depende de 3 fatores, citados por ordem de importância:
    •     1. Condições inatas (genético).
    •     2. Treinamento.
    •     3. O que rodeia o treinamento (alimentação, repouso, etc.).
  • O glucógeno se armazena hidratado, portanto é imprescindível beber muita água. Por cada grama de glucógeno armazenado são necessários 3 milimoles de água. Se aceitarmos que um desportista necessita 3 vezes mais de glucógeno, teremos que orientá-los a beber 3 vezes mais que uma pessoa comum.
  • O único luxo que não se pode permitir um desportista é ficar desidratado. Não é necessário esperar que o mecanismo de defesa dê o aviso de sede.
  • Deve-se beber água antes, durante e depois do exercício.
  • Diariamente, as maiores quantidades de água devem ser ingeridas depois do treinamento.

4.5. Músculos Agonistas / Antagonistas
  • Toda ação biomecânica obedece a um processo muscular agonista que produz o movimento. A contração é sempre do tipo concêntrica (MÚSCULOS AGONISTAS).
  • MÚSCULOS ANTAGONISTAS. O sinergismo negativo se denomina antagonismo e fundamentalmente porque sem ele não existiria a coordenação. Estes músculos se opõem ou relaxam quando os agonistas realizam sua ação.
  • Os antagonistas trabalham pouco e sucede que às vezes não têm suficiente força para resistir a ação dos músculos principais, aparecendo lesões ou chegando em alguns casos à ruptura por descompensação.

4.6. Trabalho de Pés
  • Exercícios de fortalecimento dos ligamentos laterais do tornozelo, perôneos, tibial anterior (andar sobre os calcanhares, girar os tornozelos para dentro e para fora, calcanhar, calcanhar-ponta, pequenos dribles - sem flexionar as pernas- elevando a ponta dos pés, etc.).
  • Exercícios de sensibilização do pé: parada, arrancada, trabalho de técnica de corrida, etc.

5. Conclusões
Se pode resumir nos Princípios Fundamentais sobre a Atividade Física para crianças, princípios que devem estar muito presentes na cabeza de todos aqueles que desenvolvam atividades com este tipo de faixa etária.


  • A criança não é um adulto em miniatura, mas sim um ser em evolução. 
  • A cada etapa de crescimento correspondem algumas características biológicas que devem ser respeitadas. 
  • É preciso adaptar a atividade física à criança, não o contrário. 
  • Iniciação multidesportiva precoce (a partir dos 6 anos) e especialização tardia (pós-puberal). Procurar exercícios simétricos e compensatórios.
  • Preparação aeróbica precoce, anaeróbica tardia. Sobrecarga do aparelho locomotor tardia.
  • Deve haver um equilíbrio atividade física - repouso - estudo.
  • Antes do início de toda prática desportiva se deve realizar um exame médico, assim como revisões posteriores de controle e rotina.
  • «Quem chega a ser campeão antes dos 18 anos, tem perdido grande parte de suas possibilidades».

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